21 de abril de 1992...
Por Fábio Cascadura
Era véspera do feriado de 21 de abril, Dia de Tiradentes: data
cívica, lembrando o desejo de liberdade dos filhos do Brasil diante do jugo
lusitano (bem antes da chegada da Família Real, logo depois da Revolução Francesa).
Era 1992! Eu trabalhava, em período de meio turno, numa empresa de
cobrança. Esperava o próximo vestibular e havia acabado de montar mais uma
banda de rock com o velho amigo da Escola Técnica, Silvano Seixas Gomes.
Era véspera do feriado de 21 de abril, Dia de Tiradentes. Naquele
ano, um “feriadão”, já que a data caíra numa terça-feira, impelindo a todos os
trabalhadores que “enforcassem” a segunda-feira de trabalho, como os
portugueses haviam feito com o inconfidente Joaquim José da Silva Xavier.
Era véspera de 21 de abril: Dia de Tiradentes. Havíamos, depois de
meses de procura, conseguido completar a formação da nossa banda com dois caras
bem mais novos que eu e Silvano. Eram Marcelo Sarraf e Marcos “Paquinho”
Oliveira – respectivamente, baterista e guitarrista. Silvano, como todos sabem,
é um mestre no baixo (já era naquele tempo) e eu era “dublê de guitarrista” e
começava a aprender a cantar. Éramos, desde fevereiro de 92, uma banda que
ensaiava regularmente, todas as terças e quintas, pela manhã (se não me engano,
de 8 às 10 horas, porque eu entrava no trabalho às 11!), além, é claro, dos finais
de semana.
Eis que ao final da interminável sexta-feira, 17 de abril de 1992
(eu realmente odiava trabalhar com cobrança – e quem pode gostar?), abria-se
diante de mim um fim de semana inteiro para burilar com meus companheiros todas
as canções que vínhamos ensaiando. Alinhávamos algumas músicas que eu já havia
escrito, como “Sexta-Feira”, “Telepatia”, “A Verdadeira História do Dr.
Cascadura” (que na época chamava-se “Hardcore”), e covers de Beatles a Ramones.
Buscávamos formar um repertório para, então, realizarmos a nossa
tão sonhada, tão desejada estreia, que, com muito esmero, ansiedade e uma dose
cavalar de inocência, vínhamos planejando. Ainda não tínhamos sequer um nome
para nos identificar como banda. Mas, enfim, havia chegado o feriadão e o que
queríamos era passá-lo ensaiando no estúdio... Estúdio?
Os tempos eram outros, amigo. Tínhamos quase grana nenhuma para
investir na banda e alugar períodos em estúdios profissionais. Com a demanda de
ensaios que pretendíamos para os primeiros meses de existência da nova banda,
era impraticável. Passamos a usar um quartinho pequeno, de aproximadamente 3x7m,
abafado, com teto baixo, uma única porta e um basculante para a circulação do
ar (uma verdadeira sauna) como sala de ensaio.
O cubículo estava abandonado nos fundos do conjunto habitacional
onde Silvano morava: dois prédios de tijolos avermelhados com escadas de
emergência externas (o que lhe imputava um ar de subúrbio nova-iorquino) situados
numa avenida que liga o bairro da Calçada ao bairro da Ribeira, na região da
Cidade Baixa, em Salvador.
A avenida é mais conhecida como Caminho de Areia, mas seu
nome oficial é Avenida Tiradentes – mesmo nome do tal conjunto habitacional que
abrigava nossos caóticos primeiros ensaios, “Conjunto Tiradentes”.
Pois bem: pretendíamos usar os quatro dias do feriadão para
melhorar nossa execução das músicas, o que nos tomava muito tempo, pois, por
pura inexperiência, insistíamos em cada canção até que a tocássemos melhor.
Óbvio que nunca funcionava, a execução sempre nos parecia uma droga. Mas
seguimos pelo sábado e domingo tentando. Além disso, parávamos durante a tarde
para, entre um lanche e uma sessão de ar fresco (não havia ar-condicionado ou
ventilador no quartinho em que ensaiávamos, o calor soteropolitano transformava
o recinto numa estufa, e a cada 25 minutos saíamos para tomar ar e deixar a
salinha aberta a fim de atenuar o torpor atmosférico lá dentro), discutir qual
nome daríamos à banda.
Até aquele momento, dentre tantos listados, o nome que melhor nos
soou foi “Dr. Cascadura” (homenagem à banda inglesa de rhythm and blues
elétrico Dr. Feelgood, com o acréscimo da tradução livre do título da canção
“Hardcore”, então a nossa favorita). Nem de longe estávamos convencidos desse
nome, mas até encontrarmos outro realmente bom, nos serviria.
Num desses momentos de discussão sobre nossos planos, nos fundos
de um daqueles prédios, sentados bem em frente à porta do nosso estúdio/cela,
veio até nós um camarada chamado Henrique, baixista de uma banda punk do bairro
que era reconhecida como uma das mais atuantes e crescentes de Salvador, não
por acaso chamada Proliferação.
Henrique vinha do ensaio de sua banda, com o baixo nas mãos, e
parou para nos cumprimentar.
- E aí, rapaziada? Terminaram o ensaio? Tão dando um gás,
hein? Já tem um show marcado? Amanhã vamos tocar no palco que está sendo
montado aqui na frente do Conjunto Tiradentes...
Palco? Que palco?
Como forma de levar lazer aos moradores das redondezas, a
Associação de Moradores da Avenida Tiradentes organizou uma festa que duraria
todo o feriado, com barracas de bebidas e jogos e um palco por onde passaria
todo tipo de entretenimento: bingo, sorteios, cantores e bandas semi-profissionais...
Amadores.
Como não sabíamos de nada? Um palco pronto, bem sob nossas barbas,
e não sabíamos de nada! Deixáramos essa oportunidade escapar. Henrique falou
que a seleção das atrações parecia já ter se encerrado, comentou sua excitação
em tocar no dia seguinte, nos convidou para assistir e partiu.
Em silêncio, voltamos para terminar algum arranjo incompleto de
alguma música e ainda comentamos que faríamos um ensaio mais curto no dia
seguinte, para que pudéssemos assistir à apresentação da banda Proliferação,
que, segundo seu baixista, ocorreria às 18 horas do dia seguinte. Pois ainda
era véspera do feriado de 21 de abril de 1992, Dia de Tiradentes...
Na manhã do dia 21 de abril, poucas horas antes de ir com seu
equipamento para o palco onde se apresentaria com a Proliferação, o baterista
da banda, Pato, sofreu um acidente doméstico, machucando seriamente a mão e
ficando impossibilitado de tocar naquele dia. Em cima da hora, os organizadores
se viram na obrigação de encontrar alguma atração que preenchesse o espaço de quarenta
minutos deixado vago pela banda punk.
Fomos convidados a substituí-los. Topamos!
Tínhamos menos de 20 minutos em canções para apresentar, o que nos
forçaria a repetir mais da metade das músicas. Na beira do palco, ainda
incrédulos pela oportunidade repentina de fazer nossa primeira apresentação, o
mestre de cerimônias perguntou: “Qual o nome da banda? Como eu apresento vocês?”.
Olhei para Silvano, pensei por uns três segundos e respondi: “DR. CASCADURA”.
P.S.: Em 2004, o nome da banda foi abreviado para CASCADURA.



